Meu relato de parto nu e cru


Mais de seis meses depois de parir e só hoje resolvi tornar público meu relato de parto. Por que tanto tempo depois? Talvez pela velha mania que tenho de espanar a poeira para debaixo do tapete e tentar esconder as tristezas da vida neste emaranhado de emoções.

Pois bem. Felizmente, dessa vez, senti a necessidade de tirar de dentro de mim e transferir para o papel tudo o que aconteceu envolvendo o nascimento do meu filho Martin.

Decidi fazer isso depois de conceder uma entrevista a uma estudante de Ciências Sociais, no último domingo, e obrigatoriamente revisitar aqueles momentos importantíssimos para a minha evolução como ser humano. Momentos esses essenciais para que eu pudesse me reconhecer mulher, em meio a toda força natural que temos dentro de nós e que muitas vezes é abafada pela sociedade patriarcal.

Pra mergulhar ainda mais no tema, assisti a uma série de documentários do Netflix chamada Renascimento do Parto (assistam!!!), que relata casos de violência obstétrica e mostra mulheres que optaram pelo parto domiciliar/humanizado. O último filme, inclusive, apresenta a Casa Ângela, onde eu acompanhei meu pré-natal e sonhava em ter meu filho lá.

Coincidentemente, no meio de tudo isso, acabei lendo críticas muito duras ao parto humanizado, vindas de mulheres - algumas mães, outras não - por meio de uma rede social. E eu, como uma boa leonina com lua em câncer que sou, confesso que engoli amargamente aquelas cruéis palavras. Não que eu me considere de fato uma "burguesa safada" que "romantiza o parto humanizado", como foi sugerido ali. Pelo contrário. Mas, me vi sendo novamente violentada por minhas escolhas.

Pra começar, minha gravidez não foi planejada e, apesar de estar super feliz com a ideia de ser mãe, foi um período bastante difícil pra mim por conta das dores físicas, mudanças sociais e bomba hormonal. No entanto, aproveitei essa fase louca pra me informar o máximo que podia sobre as possibilidades do parto. Queria muito que fosse humanizado. Nunca fui muito fã de hospital e desde criança (por conta dos relatos de minha mãe) sempre morri de medo de cair numa cesárea.

Como não tinha plano de saúde quando engravidei, comecei a acompanhar o pré-natal pelo posto de saúde do meu bairro. Consultas rápidas, mas assertivas até o fim. E no meio do processo encontrei uma doula anja maravilhosa, a Mari, que me ajudou bastante com o plano de parto e na escolha da maternidade - e até hoje me salva das dúvidas com o bebê. A ideia era parir da maneira mais bonita possível na Casa Angela, em São Paulo, um centro de parto humanizado super incrível - e totalmente GRATUITO.

Então, comecei a acompanhar a gravidez também por lá. Quanto amor envolvido! Cada consulta com mais de 1 hora de duração. Enfermeiras e obstetrizes realmente preocupadas com o bem estar meu e do bebê. Acima de tudo, muito respeito nos procedimentos - muito diferente do lugar onde eu realmente tive meu parto. Pois é, meus planos de parto humanizado foram por água abaixo e vou explicar o porquê...

No dia 23 de julho, uma segunda-feira, comecei a ter as primeiras contrações. Segundo a minha doula, eu ainda estava em pródromos (sinais que indicam que o trabalho de parto está próximo), pois ainda eram espaçadas. Porém a dor foi aumentando absurdamente com o passar das horas. Passei a madrugada inteira tentando relaxar e nada. No dia seguinte, na terça, fui a noite na Casa Angela achando que já estava em trabalho de parto, pois as contrações estavam muito doloridas, mas, infelizmente, tinha apenas 1 cm de dilatação. 

Volto pra casa e mais uma madrugada do cão. As dores foram piorando cada vez mais e nada de conseguir dormir. Ia pro chuveiro, tomava chá de Camomila, apertava meu marido e nada resolvia... Então, esperei mais um dia inteiro - aos berros, em casa - pra ver se as contrações criavam ritmo para realmente entrar em trabalho de parto ativo. 

Na quarta a noite, estava eu novamente na Casa Angela. Dessa vez, devia ter aumentado a dilatação, né? Já que as contrações vinham cada vez mais rápido. Ledo engano. Chegando lá, pra minha surpresa, ainda estava com 1cm. Socorro! A cada exame de toque, por mais delicado que fosse feito, eu surtava mais de dor. Então, ao medir minha pressão, um pico de 16. E aí começa o meu terror. 

Por conta da pressão alta (que muito provavelmente era por causa dos 3 dias de dor ininterrupta, já que nunca tive histórico de hipertensão) eu não poderia mais parir na Casa Angela. As enfermeiras fizeram acupuntura em mim, me deram um chá e me encaminharam para um hospital. Eu escolhi a Maternidade Municipal da Vila Nova Cachoeirinha por ser especialista em partos de alto risco e ser perto da minha casa, ao invés de seguir para o Amparo Maternal - minha segunda opção inicialmente. 

Chegando lá, fui consultada pela plantonista que, para minha surpresa, identificou 4cm de dilatação e pressão normalizada! Ou seja, nos 40 minutos de trânsito de um lugar para o outro, meu quadro havia mudado completamente. Por isso, não tinha mais volta, teria que parir ali mesmo.  

Um enfermeiro entra e, sem ao menos perguntar meu nome, diz: "Tira toda roupa e põe a camisola rosa hospitalar". Toda minha mala preparada com todo carinho não seria mais útil naquele lugar frio e impessoal. Subi sozinha para realizarem alguns exames de sangue e urina e aguardar meu marido na cabine de pré-parto. 

Cabines de aproximadamente 1 metro quadrado com uma maca e uma cadeira para o acompanhante separavam as gestantes em trabalho de parto através de cortinas. Um ambiente inóspito e sufocante pra quem sentia esse tipo de dor. Dois banheiros no corredor para quem quisesse tomar banho e amenizar as contrações. Uma noite fria em todos os sentidos. 

Enquanto esperava meu marido sozinha, recebia a primeira abordagem invasiva de uma das enfermeiras: “Nossa quantas tatuagens! Ai de você se reclamar de dor, hein, moça?”. Em seguida, outra médica passou para me consultar. Novamente, cerca de 30 minutos depois, mais um exame de toque. Dessa vez, perguntei se havia a necessidade de realizar o procedimento, já que havia feito há tão pouco tempo e ainda estava com 4cm de dilatação. Ela revirou os olhos e disse sim. Parece que a minha pergunta fez com que ela fosse ainda mais estúpida ao me tocar. 

Quem já pariu sabe que quando você está tendo contrações, os exames de toque são extremamente doloridos e fazem piorar cada vez mais as cólicas. E assim o procedimento continuou a acontecer a cada 1 horas pelo menos. Das 23h até as 8h da manhã. A cada vez com um médico diferente e menos delicado. Lembrando que o Hospital Maternidade da Vila Nova Cachoeirinha é uma escola de medicina, então, além dos médicos e corpo de enfermagem, existem os estudantes. Então, além de tudo, eu era objeto de estudo.

Teoricamente o tempo que fiquei em trabalho de parto ativo lá foi bem curto, em comparação a muitas mulheres. Menos de 10 horas. Acho que não aguentaria mais que isso. No entanto, o suficiente para vivenciar todo o terror que estava tentando fugir quando sonhava com o parto humanizado. Já no primeiro exame de toque, a suspeita de haver mecônio na bolsa. E assim que confirmaram que o bebê havia feito cocô na barriga, mais um cardiotoco (exame para medir os batimentos do bebê) extremamente dolorido. 

Eu já não gritava mais, eu uivava de dor. Ficar deitada de barriga pra cima com aquele aparelho prendendo o meu abdômen durante quase 30 minutos, cerca de 3 vezes durante a madrugada, só me fazia ficar mais desesperada. Tudo o que eu queria é que me cortassem e tirassem meu bebê de dentro de mim. E pra piorar, nenhuma palavra de aconchego, de consolo, ninguém, além de meu marido que também estava muito perdido, olhava pra mim e falava que ficaria tudo bem. 

Como proíbem doulas de participar dos partos, levamos o nosso plano de parto impresso num papel e falavamos com a nossa por whatsapp. Até tentamos entregar o plano para uma das médicas, mas ela realmente não deu a mínima. Inclusive, tirou sarro da humanização quando eu falei que na Casa Angela fizeram acupuntura para baixar minha pressão ao invés de me medicar. A sensação que tive com absolutamente todos os médicos que citei o termo “parto humanizado” foi a mesma: coisa de hippie. 

Enfim. Em meio a dores insuportáveis (dizem que o mecônio piora as dores do TP), inúmeros exames de toque e cardiotocos, cheguei a 8cm de dilatação depois de estourarem a minha bolsa, com a adrenalina a mil. A médica, então, grita: maca! E me obriga a deitar de barriga pra cima e seguir correndo para a sala de parto. Juro, mais do que qualquer coisa, a posição de barriga pra cima era desesperadora!

Chego até a sala de parto, um lugar hiper iluminado, com uma equipe de pelo menos 8 pessoas - que só aumentava ao longo do parto (provavelmente estudantes) - , e me lembro automaticamente do meu plano de parto. Olho no fundo dos olhos da obstetra e peço pelo amor de deus que não tenha episiotomia (corte na região do períneo). Ela me diz que não sabe se será possível. Então, seguem me lavando pra começar com o puxo dirigido. 

Eu, novamente, tento convencer a médica a parir em outra posição, pois ficar de barriga pra cima era realmente desesperador. Ela me responde: “Não, Mirella, são normas do hospital e seu bebê fez cocô na sua barriga! Você não quer prejudicá-lo, não é mesmo?”. E aí me colocam em posição ginecológica e, mesmo com 8cm de dilatação, começam a me falar para fazer força durante as contrações. 

Lembrando que, neste momento, eu já estava há 3 noites sem dormir nem por 1 hora. Ou seja, estava realmente exausta pra fazer força contra a gravidade, principalmente com várias pessoas gritando no meu ouvido e, ao contrário, me impedindo de gritar, pois diziam que eu “não estava ajudando”. 

Portanto, desde a hora que entrei na sala de parto, até o expulsivo, demorou cerca de 1 hora. Motivo suficiente para as médicas cogitarem me cortar. Se não fosse meu marido dizer não, a episiotomia que eu pedi pra não ser realizada teria sido feita sem o meu consentimento. Ao ouvir que existia a possibilidade de acabarem com a minha vida sexual num corte desnecessário, encontrei forças na minha raiva e meu filho nasceu. 

O Martin nasceu num pico de adrenalina e medo, com zero ocitocina natural, para minha tristeza. Contrariando todos os médicos que me diziam ser impossível um parto normal sem uma enorme laceração, o meu bebê nasceu com 3.925kg, 51cm e 36 de perímetro cefálico, com laceração grau 1. Enquanto me costuravam, perguntei quantos pontos tomaria e me informaram que não poderiam me falar. Como assim não posso saber?        

A maneira como meu parto foi conduzido pode ter sido a mais "correta tecnicamente", para a medicina tradicional, mas eu senti que fui roubada, que roubaram o meu primeiro encontro com meu filho. Ao fim do parto, eles o colocaram rapidamente em meu peito e logo tiraram ele para procedimentos de rotina. 

Foi aí que novamente lembrei do meu plano de parto e pedi para meu marido informar à enfermeira que a gente não queria que pingasse o nitrato de prata, um colírio invasivo e desnecessário para o recém nascido, aplicado apenas para evitar o contágio de gonorréia da mãe para o bebê. 

Eu, assim como toda gestante, fiz diversos exames de DSTs durante o pré-natal e todos haviam dado negativos. No entanto, lembra aqueles exames que fiz ao entrar na maternidade? Um deles, o de sífilis, deu positivo. É normal dar um falso positivo dessa doença em grávidas, mas, mesmo sabendo disso e que nada tinha a ver com gonorréia, a enfermeira deu um jeito de manipular a situação, perguntando se eu tinha certeza que não queria pingar o colírio, que seria minha responsabilidade se meu filho ficasse doente. Eu, com medo, aceitei.

Veja bem: Eu havia acabado de parir, era a primeira vez que eu e meu marido víamos nosso filho, e essa mulher me diz de forma debochada que eu tenho sífilis e ainda poderia ter gonorréia. Ou seja, no combo da insensibilidade, ela conseguiu detonar o meu primeiro encontro com meu filho e ainda fazer com que eu e meu marido cogitássemos uma traição. Lembrando que, mesmo se eu tivesse sífilis (o que eu realmente não tenho), o nitrato de prata não evitaria a transmissão. Portanto, ela insinuou que se eu tivesse uma das DSTs seria provável que eu teria a outra. Apenas com a intenção de me deixar vulnerável.

Enquanto eu, irada, debatia com ela que havia acabado de fazer esse exame no posto de saúde e havia dado negativo, ela me diz o seguinte: você pode ter contraído a doença depois que fez o exame. Ou seja, aos 9 meses de gravidez eu teria transado com alguém que tem sífilis, que poderia ser meu amante ou o meu marido, que por sua vez teria contraído de alguém. Dá pra perceber quão surreal e insensível é a situação que passei neste hospital que deveria cuidar com carinho das gestantes?

Sai da sala de parto ainda na maca, com a mesma camisola suja com o líquido da bolsa de mecônio que haviam estourado, vestindo uma fralda pós-parto para conter a hemorragia e sem fazer a mínima ideia o que fazer com um recém nascido. Ele mamou alguns minutos no meu peito e foi colocado pelas enfermeiras no meio das minhas pernas, pra correr com a maca pelos corredores mais rápido e nos levar ao quarto coletivo.

Nessa ocasião, eu não fazia ideia onde meu marido estava, pois haviam proibido ele de entrar no quarto nas próximas 6 horas. Lembrando que junto com ele estavam todos os meus pertences, incluindo minhas roupas, as roupas do bebê, meu celular e meus óculos! Ou seja, eu não consegui enxergar o meu filho nas suas primeiras 7 horas de vida. E não fazia ideia o que tinha acontecido ao meu marido que não estava lá comigo. Me senti muito sozinha.

Pouco depois de chegarmos ao quarto, já levaram o bebê para o primeiro banho e o vestiram com uma roupa horrorosa do hospital. Isso sem sequer pedirem minha autorização ou conferirem que no meu plano de parto exigia que era eu quem gostaria de dar o primeiro banho nele. Aliás, respeito zero a qualquer coisa escrita no meu plano. Era assim do jeito deles ou era.

Não contentes, toda vez que algum médico vinha me examinar no alojamento de pós-parto, ele falava em alto e bom som que eu tinha sífilis para todas as outras puérperas ouvirem e os alunos da universidade tomarem nota, me constrangendo absurdamente. Minha mãe, que chegou a quase acreditar, estava ao meu lado enquanto eu tentava dizer para o corpo médico que eu tinha certeza que não tinha a doença, mas, ao invés de me ouvirem e buscarem investigar, me sugeriram tomar 6 benzetacil apenas para “prevenir”. Obviamente eu recusei e aqui estou (saudável fisicamente) tentando encontrar forças para finalizar este texto e buscar um advogado para entrar com um processo por danos morais em cima deste hospital por tudo o que passei.

Aliás, as barbaridades não param por aí. Assim que cheguei à maternidade, me perguntaram se eu tinha interesse em implantar um DIU no pós parto, para aproveitar a dilatação. Eu disse sim e assinei a autorização. Quando perguntei para os médicos após o parto se haviam realmente colocado o contraceptivo, ninguém sabia me responder. No prontuário não citava nada e na alta hospitalar dizia que tinham colocado. Resultado? Descobri recentemente que não tenho o DIU. Imagine se eu tivesse confiado no prontuário??

Bom, sobrevivi a essa semana de terror e trouxe meu menino pra casa, quando finalmente consegui sentir ele de verdade depois de passar por um verdadeiro pesadelo. Apesar de hoje estar tudo bem, ainda não digeri tudo o que passei naquele hospital. Toda vez que me lembro da violência que fui submetida (que talvez nem caiba em tudo aqui) tenho mais vontade de evitar que outras mulheres passem por isso.

 Ser mulher e mãe no Brasil não é nada fácil. Infelizmente, por mais informadas que estejamos, sempre existe a possibilidade de sofrer alguma violência. E neste caso, não tem dinheiro que pague a nossa dignidade. Eu mesma achei que estava protegida pela corrente da humanização. Ledo engano. 

Mirella Fonzar

Miss De-Lovely é o nome de Pin-Up da jornalista Mirella Fonzar, editora do portal Universo Retrô e diretora da agência de marketing digital Casa de Criatividade. Leonina, workaholic e viciada em tudo que vem do passado. Coleciona discos, tatuagens e batons e vive dizendo que gostaria de ter nascido em outra década. E não é que parece, mesmo, ter vindo dos anos 1950?

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